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GERHARD DILGER, PORTO ALEGRE
“Não há informação isenta na Colômbia ou na Venezuela”
Jéferson Assumção
O jornalista alemão Gerhard Dilger, 43, é, desde 1999, correspondente na América Latina dos jornal alemão Die Tageszeitung. Atraído pelas experiências sociais das administrações petistas e do Fórum Social Mundial, mora hoje em Porto Alegre. Antes, esteve na Colômbia de 1992 a 1997, onde trabalhou como repórter, além de ter sido correspondente do jornal colombiano El Tiempo, na Alemanha. Recentemente, Dilger passou o mês de agosto entre a Colômbia e a Venezuela. Em Bogotá, acompanhou a tumultuada posse do presidente Álvaro Uribe, que teve um saldo de 16 mortos. Na Venezuela, observou aspectos da Revolução Bolivariana colocada em prática pelo governo de Hugo Chávez, quem, para Dilger, é um contraditório “caudilho de esquerda”.
Adverso - Estava muito tenso o clima em Bogotá no dia da posse de Álvaro Uribe?
Gerhard Dilger - Tinha helicópteros norte-americanos, aviões Mirage, muitos soldados e policiais colombianos em Bogotá. Também rumores de eventuais atentados, que me pareceram exagerados, como a história de um avião que cairia no Congresso. Isso era divulgado pelo Exército e o pessoal do serviço secreto. Acho que foi uma coisa inventada, uma montagem. Às três horas, eu estava perto do Palácio, ouvimos um barulho e ficamos sabendo que havia sido bombas, ataques de morteiros no palácio e tal. O maior deles entrou em uma favela perto do palácio e matou 16 pessoas. A maioria indigentes. Até se pensou que isso fosse o que, na Colômbia, se chama de “limpeza social”, que são os esquadrões da morte que matam indigentes, pobres.
Adverso - Então poderiam ser ataques de esquadrões da morte?
Dilger - Extra-oficialmente, sim. Falei com gente que pensava isso. Evidentemente que foi um ato de terrorismo e sempre quando acontecem esses atos, em qualquer lugar, se pensa muito em idéias de conspiração. O efeito é uma sensação de incerteza e medo na população e isso é o ideal para justificar medidas de corte autoritário e até repressivo. Foi o que aconteceu no dia seguinte pelo governo recém empossado.
Adverso - E esses morteiros teriam sido disparados por quem?
Dilger - A versão divulgada é de que foram disparados pelas Farc, que a tecnologia desses morteiros teria sido fornecida pelo IRA. É possível, mas também, naquele momento, a pergunta era “para quem esses ataques
eram bons, politicamente?” Evidentemente que foram um presente, como o 11 de setembro foi um presente para o Bush. Esses ataques foram um presente para o Álvaro Uribe, que podia justificar as medidas que iria tomar no dia seguinte. Às seis da manhã ele já estava na costa do Atlântico, no Caribe, para introduzir um de seus programas anunciados, chamado de “Um milhão de amigos”, com espiões recrutados entre campesinos como informantes. É a idéia de pagar menos de um salário mínimo por informações. Eles fariam parte da polícia.
Adverso - É a formação de mais um exército paramilitar, então?
Dilger - Essa é a crítica das organizações dos direitos humanos, de que poderia ser o núcleo de outro exército paramilitar.
Adverso - Qual é a opinião da população em relação a este programa?
Dilger - O problema é que Uribe ainda está na lua-de-mel com o eleitorado. Ele ganhou as eleições no primeiro turno, com 53%, com grande apoio, o que na minha maneira de ver é resultado do cansaço das pessoas com a guerra, com as políticas das Farc e do fracasso da política do predecessor, Andrés Pastrana. Ele apareceu como um político fraco, que não foi capaz de controlar, nem de fazer a paz nem de avançar contra a guerrilha. Então, agora, vem este ataque que supostamente é atribuído às Farc e que parece ter sido mesmo... Aí entra exatamente a questão do papel da imprensa, que é um grande problema tanto na Colômbia quanto na Venezuela. Porque lá não existe uma imprensa independente, evidentemente, e não existem correspondentes de guerra sérios, tudo é controlado. O problema é que a mídia está completamente controlada pela burguesia. Só tem um jornal grande em Bogotá: El Tiempo. O outro, El Espectador, está com problemas financeiros e agora só sai aos domingos. E El Tiempo é o porta-voz da classe dirigente. Então, você não pode esperar informação objetiva do conflito. As informações publicadas da guerrilha são partes de guerra interessados e que publicam a verdade deles. Assim, é impossível de se ter jornalismo independente. Além disso, a maior parte dos jornalistas mortos no mundo são colombianos.
Adverso - Você esteve na Venezuela, também.
Como estão as coisas lá?
Dilger - Eu tinha muita curiosidade de fazer uma observação mais direta da chamada Revolução Bolivariana, que só acompanhava de longe. Queria conhecer essa figura do Hugo Chávez. Isso tudo é muito importante porque são um processo e um político que despertam muitas esperanças também na esquerda latino-americana e em outras partes, dentro do movimento antiglobalização. A situação lá é mais complicada e não é fácil de resumir em poucas palavras. Está claro que a Revolução Bolivariana é uma tentativa de criar um projeto diferente, sobretudo no plano político. Hugo Chávez foi eleito com 56% em 1998, no ano 2000, ele foi confirmado com 59%. É uma pessoa muito carismática que representa ainda hoje a esperança para muitos pobres, que são a grande maioria da população. Por outro lado, ele foi pára-quedista, ele vem da tradição dos militares progressistas, que também existe em outros países como o Peru e Panamá. E o triunfo dele se deve muito ao fracasso completo dos partidos tradicionais, que estavam no poder desde 1958. Lá, assisti a um de seus programas Alô, Presidente, que é dominical e é sobretudo um espetáculo. É como um ritual, de rádio e tevê. Eles montam cada domingo em partes
diferentes da Venezuela um estúdio improvisado e ele conta o que fez na semana que passou, de uma maneira muito pausada. Não é um discurso, como eu imaginava antes, eleitoral. É uma coisa que ele conta e seu monólogo é interrompido de vez em quando por chamadas do Alô, Presidente, selecionadas, de humoristas ou uns estrangeiros. Ele também leva para lá parte de seu gabinete e dialoga com eles, que contam as obras que fizeram e os programas que estão lançando etc.
Adverso - Também é um contraponto à grande imprensa...
Dilger - Sim, faz um contraponto à grande imprensa. A mídia na Venezuela é muito diferente de todos os países latino-americanos. Porque todos os jornais diários, menos um, estão todos controlados pela oposição ao Chávez, ou seja, pela burguesia, como aqui o conflito entre a imprensa e o governo do PT, mas multiplicado por cem, num tom muito mais agressivo de lado a lado, com ataques até físicos de chavistas a jornalistas. E um jornalismo nem sempre muito ético, com calúnias. Mas também não é só propaganda porque essa mídia ao meu ver cumpre um papel muito importante, de controle do que é potencialmente autoritário. O Chávez é um cara militar, um caudilho. Para mim é um caudilho da esquerda, o que já é uma contradição em termos. A Constituição fala de participação, de democracia participativa, mas de fato é muita retórica e pouca realidade. É muito evidente que a maior parte do programa progressista de Chávez fica na retórica. Na realidade, o governo não conseguiu aproveitar a alta no preço do petróleo, que foi bastante forte em 99, quando ele assumiu e, em termos econômicos, os índices estão piorando, com uma crise geral. Também se deve discutir se esta crise se deve a condições gerais, macroeconômicas.
Adverso - Como está o interesse nesses países em relação às eleições no Brasil?
Dilger - Sobre Lula, há muito interesse tanto na Colômbia quanto na Venezuela como em outros países. O Lula é uma esperança para os latino-americanos. Muitos me perguntaram sobre o Lula, sobre as mudanças que poderiam se passar no Brasil... É um pouco como o Chávez. De longe parece como uma figura só positiva. Para fora, a vitória do Lula daria muita coragem, como o sucesso de Evo Morales na Bolívia foi estimulante para a esquerda no Brasil, Argentina e Colômbia. Com certeza uma vitória do Lula poderia dar muita força à esquerda de outros países também. Acho que os anos que vamos viver agora são uma encruzilhada, muito interessantes e com muitas possibilidades de mudanças e de resistência ao modelo neoliberal que está evidentemente em crise como estão admitindo seus próprios porta-vozes.
(Adverso 108, Porto Alegre, outubro 2002)
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